12 de mai de 2010

DÉRCIO BRAÚNA E OS MISTÉRIOS DO VERBO, por Nilto Maciel

Recebi, neste abril de muito calor nas bandas de cá do Ceará, um presente refrescante: exemplar do novo livro de Dércio Braúna – Como um cão que sonha a noite só (Rio de Janeiro: 7Letras, 2010). O título é longo, mas a obra não é nada enfadonha. Li-a sem preguiça, sem fastio. Pelo contrário, com muita vontade, gana, apetite. Como são gostosos esses contos! Ou serão crônicas? Talvez contos-crônicas. Ou crônicas-contos. Mas isto não tem importância. Nestas horas (de prazer) de nada valem adjetivações, definições, especulações.
O volume é dividido em três partes: “Aridez lavrada pela carne disto”, “Hecatombe clara” e “Cham archaico”. Há também umas notas no final do tomo: justificativas de títulos, citações (intertextualidade), usurpações (como Dércio “confessa”), remissões a obras várias, etc. Tudo a denotar as leituras do escritor. De que resulta seu estilo, seu modo de dizer. Nada parecido com o que se escreve no Brasil. Pois Braúna é estudioso das literaturas e das histórias dos países de língua portuguesa. É também historiador, “com pesquisas sobre os tempos pós-coloniais moçambicanos, a partir da obra de Mia Couto.” E poeta, com três coleções editadas, de 2005 para cá.
Nesta obra, Dércio Braúna, em linguagem “limpa”, porém sem pedantismos, mergulha no mais fundo do ser humano. E dos cães. A solidão é tratada (ou vista) com olhos de mergulhador. Veja-se a peça que dá o título geral. A solidão do escritor e as dores dos outros: “Deus é a nossa mulher-a-dois”. A relação social do escritor (inventor de histórias) com sua empregada doméstica, sua diarista: “Também ficou a saber coisas, umas que até lhe arrancaram demorados risos, como quando o homem dos livros lhe disse que se ela vivesse em Portugal seria uma ‘mulher-a-dois’, que é como lá chamam as diaristas.” Solidão e solidariedade. Basta ler “Sob a noite terna (concretamente muda)”. Ou “Junto ao passeio público”. Solidão animal, de cães: “Dia santo”. A solidão na morte, mesmo que de criaturas nascidas em laboratórios: “Amaru”.
Dércio se vale das mais variadas formas de narrar, como no conto-ensaio-notícia: “Uma oração na era da mecânica”. Sem deixar de lado a linguagem poética, como em “Homem só mais seu cão aos pés”. E, por ser vário em sua elaboração literária, consegue saltar à frente de muitos que por aí vão publicando seus livrinhos. “O fundidor de metais” é muito bom. “Altari domini” chega a ser esplêndido, no sentido de admirável. No miolo há até trecho no qual o narrador especula sobre o como fazer literatura: “o gosto reiterado de emendar migalhas de alheias vozes”. Há peças que devem ser tidas como ótimas: “Da história e dos homens”. Ou muito interessantes: “Os círculos dos ossos”. Ou seja, Dércio Braúna sabe escrever, leu e aprendeu a escrever, tem imaginação, talento. E algo mais, que falta à maioria dos escritores brasileiros. Não por ler atentamente esses estrangeiros e brasileiros de hoje (e os de ontem também) que sabem escrever, como António Lobo Antunes, António Ramos Rosa, Gonçalo M. Tavares, José Saramago, Adília Lopes, José Eduardo Aqualusa, Kafka, Ferreira Gullar e muitos outros, mas por saber onde se encontram os mistérios do verbo. Pois Dércio Braúna vem dos sertões cearenses: nasceu em Limoeiro do Norte e vive em Jaguaruana. Apresentou seus contos aos julgadores do V Edital de Incentivo às Artes do Ceará e obteve aprovação. Não é um escritor qualquer. É um novo bom escritor. E este Como um cão que sonha a noite só é obra de quem sabe onde pisa. Fortaleza, 4 de abril de 2010.

COMO UM CÃO QUE SONHA A NOITE SÓ

“Que se passou àquele homem?”. Isto nos é perguntado pelo narrador da história de um homem que, sem se saber o porquê, se pega a chorar em meio à leitura de um livro. “Que se passou àquele homem?”: curiosidade tão simples, necessidade tãomente imensa dos viventes. Há de ser por isso que diga um senhor, de honorável ofício, que “o homem conta histórias como protesto contra a sua finitude” [Fernando Catroga].
Contra a sua e contra a dos outros que lhe rodeiam. Não só no seu tempo, mas também naqueles que se findaram, dos quais não temos mais que parcos rastros (círculos de ossos, rabiscos esfarelentos), dispersos fragmentos com os quais vamos tentando responder: que se passou àquele homem?, àqueles tantos que mais não têm que essa genérica e contundente nominação: homem, humana criatura.
Um homem só mais seu cão aos pés, uma desgraçada mulher-a-dias, um estudioso do horror, o justo assassínio de um morto, um fundidor de metais, uma humanidade desaparecida, a história de uma outra igualmente findada: essas são algumas das histórias, alguns dos protestos de quem conta (imagina) essas vidas contra a finitude, contra o sabido esquecimento de seus rastros (inda que de escritura) pelo mundo.
O contar (o corpo de escritura) deste Como um cão que sonha a noite só traz-nos ao pensar (e ao sentir) esse protesto da vida contra a finitude, contra a solidão do existir contra o tempo. Nas vidas, nas pobres vidas dos que se escrevem (e se apagam) nessas páginas, o que lemos é mais que suas pequenas tristezas, seus gozos extemporâneos, suas coléricas resignações; o que temos enredado nessas vidas é o invisível fio da imaginação costurando essa força (que é “poder conjecturar além daquilo que se pode saber”, como dito por A. Manzoni) ao duro chão do viver, numa escrita que parece fazer questão de dizer, claro e alto, que “a literatura não nasce no vazio” [Tzvetan Todorov], que seu fio urdidor é sempre tecido nesses domínios partilhados (entre os viventes, entre o que têm a viver e o que podem dele imaginar).
“Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão” [Tzvetan Todorov]; somos todos essas mortais e pequenas criaturas, que “surgimos, de certo modo, a meio de uma conversa que já começou e na qual tentamos orientar-nos para fornecer-lhe o nosso contributo” [Paul Ricoeur]; somos todos esses cães que, apesar de tristes e sós, levam a cabo seus ofícios: o de guardarmos a manhã que há de vir. Por palavras outras dizendo: Como um cão que sonha a noite só é a escrita de um autor que não abdica de fazer de seu ofício um contributo a essa conversa a meio da qual nascemos – e a meio da qual partiremos. COMO UM CÃO QUE SONHA A NOITE SÓ Contos Editora 7Letras [2010]